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segunda-feira, 22 de junho de 2020

102 > De passagem na pandemia, Perfeito Fortuna

Com o acúmulo de lembranças e novas histórias, e o repentino tempo disponível forçado pela quarentena necessária no enfrentamento da pandemia, diante do "novo coronavírus" da Covid-19, entre outras tragédias e desgraças no Brasil, em especial, e em todo o mundo, pois então, que se reabra o Blog da Turma de Olaria!
Marcando mais este momento histórico da nossa pequena história mergulhada na História, trago do blog Bonecos da História uma postagem sobre um dos nossos personagens que virou celebridade.

Quem reapareceu no noticiário, por conta dos recém completados 70 anos, com direito a matéria de página inteira em O Globo, sintetizada em vídeo afetuoso no YouTube (ambos os registros feitos por sua filha jornalista Maria Fortuna), e justamente quando eu me preparava (há mais de um mês, que na quarentena o tempo é relativo...) para falar dele nos Bonecos da História, foi o meu velho amigo, o agitadíssimo agitador Perfeito Fortuna.
Perfeito Fortuna em Trate-me Leão - Rio, 1977 - foto Guina Araújo Ramos
Quando digo "velho amigo" estou falando de mais de 50 anos. Eu o conheci em 1968, quando comecei a conviver com a chamada Turma de Olaria, grupo de jovens da igreja São Geraldo, católica, em Olaria, na Zona da Leopoldina, Rio de Janeiro. Nessa turma, Perfeito Fortuna era um líderes inconteste, a ponto de ser preso pela ditadura na noite do AI-5, indo passar uma temporada "animando" o xadrez, como relembra Caetano Veloso.
Antes disso, Perfeito foi não só o Severino, mas também um dos criadores da peça Morte e Vida Severina que montamos no porão da igreja e excursionamos pela redondeza. E fizemos incríveis viagens de carona, a começar pela antológica viagem a Foz do Iguaçu, feita por 14 jovens em grupos paralelos, via Presidente Prudente, navegando pelo Rio Paraná. 
E eu ainda fiz parceria com ele, entre outras aventuras, por conta das amizades com os padres que passavam pela nossa igreja, em uma surrealista viagem de carona do Rio a Presidente Prudente, e daí a Goiandira, Goiás, para visitar um padre americano que conhecemos em Olaria. E fizemos outras, coletivas, incluindo a viagem para uma pesquisa em Goiandira, da qual a anterior fora preparatória.
A partir daí, Perfeito Fortuna fez o que lhe cabia: mergulhou no mundo cultural do Rio de Janeiro!
Perfeito Fortuna e elenco da peça Trate-me Leão, Teatro Dulcina, Rio, 1977
Foto: Guina Araújo Ramos
Nem bem se dissolvera a Turma de Olaria, assumiu o seu teatro (e até reconstruiu o Cacilda Becker), e nisso se enturmou com o grupo "Asdrúbal trouxe o trombone", pontificando na montagem da peça Trate-me Leão, que fotografei inúmeras vezes, no Teatro Dulcina, na Cinelândia, e no Teatro Ipanema.
Perfeito Fortuna em seu escritório na Fundição Progresso, 2011
Foto: Guina Araújo Ramos

A partir daí, impulsivo mas lúcido, como sempre foi (e já contou as suas histórias várias vezes), inventou o Circo Voador no Arpoador, que decolou e parou na Lapa. 
Continuou viajante, dos altos astrais do Acre às performances expressivas em filmes e novelas. 
E retornou à Lapa, sempre se descolando, para se tornar a âncora da Fundição Progresso, uma espécie de novo sustentáculo dos Arcos e da noite.
Mestre Finfa e Perfeito Fortuna - festa na Fundição Progresso
Foto: Guina Araújo Ramos, 2011
Lá, em 2011, recebeu, para o que chamamos de "Um encontro perfeito", toda a Turma de Olaria, e mais a parceira Turma de Manguinhos, e ainda o lançamento do livro Estrela miúda - breve romance infinito, de Fábio Daflon, sobre a sua sobrinha Kika, figura icônica da turma de Olaria.
Foi sensacional! Resultou numa festa de arromba, uma incrível bacalhoada (afinal, Perfeito é português) com que comemoramos os 40 anos desta ampla amizade geral.

Além desta acolhida às antigas turmas da juventude, Perfeito também abriu espaço na Fundição Progresso para o lançamento do meu livro "2112 ...é o fim!", em 2013, em evento organizado por seu irmão Biel Fortuna no espaço cultural Mercado Fundação.

Todo o resto, e tudo isto que citei aqui, é história. 
Perfeito Fortuna se tornou esta figura que, apesar das pandemias, sempre destrinchou, e lhes deu o melhor dos sentidos, os pandemônios culturais que criou, encontrou ou encarou. 
E eu estou, e fico, para tentar simplificar, feliz para sempre por ter tido alguns inesquecíveis momentos de parceria com Perfeito Fortuna em sua deslumbrante trajetória na história cultural do Brasil.

 

terça-feira, 26 de julho de 2011

062 > Pe. Carmelo redescoberto!

Nosso blog, por razões diversas, andava meio devagar-quase-parando, mas ainda temos muita história pra contar...
E esta é internacional!
É resultado de mais uma pesquisa do nosso incansável Bonilha, via Internet: conseguiu reencontrar o quase mitológico Pe. Carmelo, que conhecemos na Presidente Prudente dos anos 70!
E trocaram e-mails tão venturosos, que merecem ser reproduzidos em todo o seu colorido...

Catedral de Presidente Prudente-SP - Julho de 1969
[fotos: Arquivos Finfa]
De: José Fernando Bonilha
Para: Carmelo
Enviado: sábado 23 de julio de 2011 16:51

Asunto: SALUDOS

                                               Presidente Prudente, el 23-7-2011

ESTIMADO PADRE CARMELO CADARSO:

                                               Soy un ex-miembro del coro de la catedral de Presidente Prudente. Hace poco tiempo he podido saber que Ud. hizo las bodas de oro en Corera con 1 misa, de la cual he apreciado las fotos (en el blog MUJERESDECORERA).
Como puede ver, la INTERNET nos acerca más y más...
                                                Algunos parroquianos de CIPRIANO ANDÉREZ VÉLEZ (Parroquia de S. Geraldo- Barrio de
Olaria, Rio de Janeiro) también han demostrado interés en conocer cómo va Ud. Ellos publican en un blog llamado www.turmadeolaria.blogspot.com/. Allí encontraréis algunas noticías sobre su persona...
                                               En el año 74 he volado sobre Florida y aterrisado en Tampa, a camino del Portugal, y comenté con un americano que se sentara a mi par (posiblemente de la C. I. A.- aunque yo no se lo supiera entonces) que Ud. vivía allí y lamentablemente yo no podría ir a veerlo, porque podría perder mi vuelo; él, muy educadamente, se propuso pasarle a Ud. mi mensaje y, para eso, tuve que pasarle e el el nombre de Ud.
ESPERO QUE ESO NO LE HAYA TRAÍDO PROBLEMAS A UD... y que haya recibido mi mensaje.
                                                  Tengo muchas novedades más caso esté Ud. interesado.

                                                                       
          RESPETUOSAMENTE,  

                                                                                 José Fernando de Melo Bonilha                                                                                
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Pe. Carmelo - Fev 2010
Muy recordado Fernando, me llena de orgullo el que hayas aprendido un perfecto Castellano. Yo continúo practicando el Portugués desde que estuve visitando a lo/as amigos que aún recuerdo con mucho cariño. Me trataron como si fuese un hermano al que recordaban con "saudades" (esta palabra fue aceptada en el Lenguage Español por la Real Academia no hace muchos años. Es ésta una palabra que uso a veces en mi libro de poemas que publiqué el pasado año con el título "Ecos del Gran Silencio" (es una palabra que dice mucho más que "añoranza"; envié un ejemplar a la morena Édima de Sousa. Le pedí que me enviara la dirección del Padre de la Catedral para mandarle también a él otro ejemplar pero todavía estoy esperando respuesta.
Vivo en la ciudad de Logroño - provincia de La rioja - después de retirarme a los 66 años de mis trabajos en USA durante 32 años.
Me hablas de Olaría, Rio de Janeiro?... Pasé allí solamente un mes aprendiendo Portugués cuando llegué a Brasil pero nunca más he estado allí. No entiendo bien lo del señor de la C.I.A.
Cuando se te ocurra visitar España hazmelo saber y me encontraría contigo como lo hice con Alberto "el Portugués" que vino España con su señora el año pasado. Pasamos un día fabuloso y de mucha alegría. Un abrazo fuerte y hasta pronto.
To amigo "Carmelón".

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PRUDENTE, 25-7-2011
ESTIMADO PE. CARMELO:

                                    Perfeito (el fundador del Circo Voador de Brasil) y otros ex-jóvenes de OLARIA se recuerdan de Ud. Aguinaldo, por ejemplo, cuenta de un día en el que se encontraron en Olaria con Ud. bajándose de un bus que venía de la playa, casi sin ropas, totalmente mojado, diciendo que había sido robado... para no citar sino una de las historias (leyendas, quizás...) que cuentan sobre Ud.
                                    Otra es: cuando me volví de Centroamérica, Ud. ya no vivía en Prudente; haría huído, junto con Vicente Llaría, de los militares de la dictadura... y que incluso un cura amigo de S. Paulo le haría providenciado a Ud. los trámites del pasaporte en carácter URGENTE, devido al peligro que corríeis... y que fue así que llegásteis a Estados Unidos...

                                   Otra más: que el padre Cipriano Andérez Vélez, de la Parroquia de S. Geraldo (Olaria) era el superior de Uds.
                                   Depué de volver a Brasil, me fui a Europa. En uno de mis muchos viajes a dedo por ahí, he solicitado alojamiento en un convento o escuela de la iglesia, en un pueblo de España. El religioso escuchó mi solicitación y, gustosamente, me acceptó por 1 día. Era amigo de D. Pedro Casaldáliga y me preguntó por él, ante lo cual intenté explicarle a él que Brasil era enorme y D. Pedro vivía tan lejos de Prudente cuanto Madrid de Moscú... Por su parte, él me aclaró que había una relación entre él mismo (responsable de aquellas propiedades de la iglesia), D. Pedro, Cipriano Andérez e todos los curas que en mi país estaban a cargo de Cipriano (lo que incluiría a Ud. y Vicente): eran bascos y progresistas...
Luiz Cesar Finfa e Bandeira na varanda da casa paroquial
Pres. Prudente, 1969
                                  Lo del señor de la C. I. A. fue: se asentó a mi par en el avión México-Tampa-Miami un americano que hoy pienso ser de la CIA. Puesto que Ud. estaba en Tampa y el avión hizo escala allí, comenté con él que, desgraciadamente, yo no podría ir a ver cómo estaba Ud.- caso contrario perdería mi viaje... Así que él, muy educadamente, se dispuso a entregarle a Ud. una razón que rabisqué apresuradamente en la misma silla del avión, el nombre de Ud. y la parroquia. Por lo que veo, la razón nunca ha llegado a Ud... lo que me parece raro.


  LAST BUT NOT LEAST, aquí sigue el "site" de los (ex) jóvenes de Olaria. Buscando Padre Carmelo en el "site", podrá acceder a sus datos       http://turmadeolaria.blogspot.com/.

 ESPERO QUE ME CUENTE MÁS DE SU VIDA, LOS DÍAS ACTUALES COMO LAS AVENTURAS DE ESTADOS UNIDOS...

                              Esté en paz y sabiduría.

                                    SU HERMANO FERNANDO BONILHA

E leiam nos Comentários, no mais perfeito portunhol,  
mais detalhes e algumas correções feitas por Guina e Bandeira,
além das explicações de Luiz Cesar sobre as fotos.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

059 > Até Breve, Cipri!

No dia 07 de maio de 2011, a Corte Celestial Olariense (CCO), numericamente já expressiva, recebeu o seu mais novo componente: o nosso Padre eterno Cipriano Andérez Vélez, grande irmão, orientador, questionador, visionário, múltiplo instrumentista, mas sobretudo semeador do amor, da verdade e da beleza, para com todos que tiveram o privilégio de com ele conviver.
Desde os meus tenros anos de adolescente que o conheci, primeiramente celebrando o casamento religioso de uma das minhas irmãs. Depois, atendendo-me em confissão, por mim solicitada, preparatória à Páscoa escolar do Colégio Ferreira Viana, onde cursava a 2ª série ginasial, com cerca de 14 anos de idade e da qual resolvera participar.
 Para meu espanto, não dirigiu-se ao tradicional confessionário e, em mangas de camisa, convidou-me a sentar em um banco da grande nave branquinha da Igreja de São Geraldo; face a face; sorriso nos lábios.
Começou a demolir um a um os velhos conceitos de pecado que haviam sido introduzidos em nossas cabecinhas, por aquela ladainha esclerosada de que pecar contra a carne era a suprema desobediência à vontade divina. Pela primeira vez fui introduzido à lógica do Amor Divino, à perfeição de seu plano original, e o egoísmo como o supremo mal, que acorrentou o homem ao longo da história e gerou todas as distorções que se institucionalizaram.
Paralelamente a esse discurso revolucionário, conheci outra de suas práticas oriundas de sua vocação sacerdotal, a dar assistência à Dª Jandira, sogra de meu irmão Jorge Eduardo, que há muitos anos jazia em um leito doméstico, com movimentos só de cabeça mas com raciocínio perfeito. Nessa época, como minha mãe, sensibilizada pelas condições de vida da sogra de seu filho, passou a visitá-la e ajudar nos cuidados higiênicos que a mesma necessitava, apesar de mamãe ser evangélica (membro da 1ª Igreja Batista de Olaria, na Rua Angélica Mota), conheceu Cipriano e tornaram-se bons amigos.
Num primeiro momento, quando se constituiu o Grupo de Jovens de São Geraldo, núcleo original da hoje Turma de Olaria, dos três jovens padres espanhóis, que integravam a equipe que assumiu a condução da paróquia, foi o já também falecido Padre Severiano, que ficou com a tarefa de orientar-nos.
Mas meu deslumbramento com aquele novo universo de idéias e práticas foi tal, que aceitei um convite de Cipriano para assumir uma turma de catequese infantil, dentro de uma proposta pedagógica nova e revolucionária, que implicava a que, após a 1ª Comunhão, a criança permanecesse por mais 03 anos, voluntariamente, freqüentando um Programa de Pós-Catecismo, voltado para sua formação integral. Funcionava aos sábados, pela manhã (das 09:00 às 11:00h), tendo eu assumido uma turma de 1º ano pós comunhão, composta por cerca de 15 meninos na faixa dos 07 aos 09 anos.
Nas sextas-feiras à noite, por volta de 20:00h, quando deixava as aulas do Colégio Ferreira Viana, pegava o trem da Leopoldina, descia na Estação de Olaria, e ia à reunião da equipe de catequese, na salinha de reunião do fundo da secretaria da matriz (onde também funcionava o famoso mimeógrafo revolucionário Gestetner, também apelidado de "Trotikinho", pois se acionasse seu botão, logo começava a cuspir panfletos políticos, Ká Ká Ká Ká!!!). Essas reuniões, conduzidas com didática e brilhantismo pelo Cipriano, estendiam-se até 23:00h ou mais, nas quais manuseava-se o excelente material didático publicado pela Editora Vozes, sempre fazendo a vinculação entre as passagens bíblicas e a realidade do dia-a-dia das pessoas. Aprofundei muito o pensamento teológico, superando as incontáveis versões mágicas e alienantes da realidade.
Depois que o Severiano resolveu deixar a paróquia de São Geraldo, para criar uma nova comunidade na Vila da Penha, no antigo Largo do Bicão (que o Severiano só conseguia falar "Vicòn") e que dentro de sua postura revolucionária propôs chamar-se de Jesus Ressuscitado (pois, segundo o mesmo, eliminaria a figura da imagem do "Padroeiro"; no altar, haveria apenas uma caverna vazia com uma porta de pedra removida – Ele havia Ressuscitado!), Cipriano foi designado para assumir o Grupo de Jovens, em suas reuniões semanais para tratar de atualidades, e suas inaugurais iniciativas de mobilização popular, através de Encontros da Juventude, montagens teatrais, etc, etc...
Dando desdobramento ao trabalho iniciado por Severiano, logo conquistou com garra a simpatia e o afeto de todos, não medindo esforços para nos impulsionar na luta pelos ideais que aprendíamos a defender. Acompanhava-nos nos encontros e happenings internos que organizávamos, em aprazíveis sítios como em ...., deslumbrante fazenda-seminário próxima de Volta Redonda, pertencente àquela diocese.
Nunca impôs seu ponto de vista nem permitiu que qualquer facção conduzisse o processo, mesmo que certos questionamentos levantados pudessem levar a uma renúncia a fé.
Após renunciar ao sacerdócio, uniu-se conjugalmente com uma recem-integrante do grupo, Nair, arribada com a galera do Casé, união de curta duração, tendo sido a mesma vitimada por uma crise cardíaca proveniente de uma insuficiência respiratória aguda.
Nessa época já me encontrava em Belém do Pará, quando recebi a notícia do desenlace; escrevi à época um longo e belo poema que enviei, datilografado, xerocado, pelo Correio, a todos. Em minha primeira estada no Rio, passei alguns dias em sua companhia no apartamento em que moravam em Jacarepaguá, onde assisti um homem chorar sua dor, ao descrever os derradeiros momentos de Nair em seus braços, e chorei com ele.
Depois o levantar-se, constituir outra família, que em seus derradeiros dias aqui entre nós, apresentou-nos com muito orgulho, momentos os quais temos brilhantemente registrados no Blog da Turma de Olaria.
Luiz Antônio Bandeira

segunda-feira, 16 de maio de 2011

058 > Despedida para Cipriano

Cipri, em nosso último encontro
Olaria, 26 Dez 2010



Nesta 2a-feira, 16 de maio de 2011, às 10h, foi realizada no Mosteiro de São Bento uma missa de 7o. dia pela morte do nosso querido Cipriano, que faleceu no dia 7 de maio, tendo sido cremado.
Foi no Mosteiro que Cipriano se casou com Aida, e lá foram batizadas as suas filhas, Daniela e Fábia. A missa foi oficiada por um padre seu amigo.


Cipriano, que morreu aos 74 anos, estava doente há cerca de um ano, com um câncer de pâncreas.

Segundo Fábia, fez um certo esforço para ir ao nosso encontro em Dezembro, os óculos escuros eram para disfarçar o abatimento...
O aviso da missa só foi feito na véspera, por volta das 21h, quando Fábia encontrou um cartão com meu telefone entre os papeis de Cipriano.

Presentes, da turma de Olaria: Guina, Gil e Cláudio Matheus.
Natália e Hermínia iam à noite à missa na igreja de São Geraldo, em Olaria.


Ao final da missa, um encontro emocionante com o nosso querido ex-Pe. Antonio, parceiro de Cipriano na igreja São Geraldo naquela época, que foi à missa com a esposa e o casal de filhos.


Também presente uma filha do ex-Pe. Severiano, Laura.

Cláudio, Guina, Antonio e Gil













Nos Comentários, a reação de alguns de nós.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

040 > As prisões do AI-5

O assunto está na pauta há tempos, mas ninguém contava por inteiro a história! 
Apenas algumas referências, não dava para editar... 
O Charles até que contou a sua “não prisão”, a escapada para Minas Gerais (em 032 > Ativismo na Igreja de São Geraldo), que repito aqui:

. Perseguição e Desaparecimento – No final de 1968 houve um mandato de prisão para três do nosso grupo: eu, Perfeito e Emílio. Os dois foram presos juntamente com Caetano Veloso e Gilberto Gil. No momento em que estes dois integrantes do grupo de jovens eram presos, fui avisado de que eu seria o próximo, consegui fugir e fui trabalhar no interior de Minas Gerais.


Há poucos dias encontrei Antonio Valente, que lembrou que estava na São Geraldo quando “os homens” vieram, ficou de escrever sobre...
Eu vagamente lembro que cheguei na igreja e tinha acontecido. Conversas sussurradas, ambiente clandestino, acho que voltei disfarçadamente para casa...

Eis que o dia chegou e ia passando...: 13 de Dezembro!
Aí, o Mauricio mandou esta mensagem, em caixa alta:
HOJE FAZ 42 ANOS DO FAMIGERADO A.I. 5, DE TRISTÍSSIMA MEMÓRIA, QUE TANTO MARCOU O PAÍS, A NOSSA GERAÇÃO E A TURMA DE OLARIA. SOBREVIVEMOS E COM GRANDE DIGNIDADE.
FRATERNO ABRAÇO A TODOS OS AMIGOS/AS.

Então, é a hora!
Abaixo, um fragmento recuperado dos nossos e-mails: fala, Banzé!
E a feira de artesanato na Praça de Bonsucesso, do dia 13 de dezembro de 1968, sexta-feira, que coincidiu com a decretação do AI-5 às 18 h, quando Emílio e Perfeito foram presos ao sair da Igreja com as bugigangas que íamos vender?
O Cony e o Dori, acho que o Álvaro também, me avisaram para eu me mandar porque estavam procurando por mim. Até hoje não sei se isto era verdade ou não mas na dúvida arrumei a mochila e vim parar em Caeté.
Caramba! São muitas lembranças e eu só me vejo metido nos casos políticos deste grupo.
Somente as meninas visitaram Emílio e Perfeito na prisão porque era mais seguro, era assim que se falava e se falava baixo ao pé do ouvido com receio de alguém escutar. Que merda!

Em comentário no 031 > O curso do Artigo 99, Bandeira já lembrara:

 (...) a repressão do regime militar que se abateu sobre nós, de forma violenta, naquele final de 1968 ("O Ano que não terminou", leiam a obra do Zuenir Ventura!), com a edição do AI-5 e a prisão de Perfeito, Emílio (mais quem?), exatamente quando nos preparávamos para participar de uma feirinha na Praça das nações, em Bonsucesso, para angariarmos fundos para ajudar na compra de uma casa para uma senhora pobre que morava no hoje "Complexo do Alemão", em Olaria (lembro-me: estava voltando do Colégio Ferreira Viana, no famigerado Caxias-Praça da Bandeira, quando ouvi pelo rádio do ônibus que havia sido editado o AI-5, e ao chegar na Pça. das Nações, encontrei todo mundo assustado, com a notícia da prisão dos companheiros...)

É assunto para muitas mais versões e reflexões!
Volto a abrir o espaço à participação de todos...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

036 > As Paixões Secretas

Tudo é perigoso...
Mas a vida merece ser (re)vivida!
Estamos abrindo o possivelmente traumatizante tema As Paixões Secretas, com a súbita colaboração do Mauricio, para lembrar (ou ficar sabendo...) de "casos" que frequentaram mais as nossas imaturas imaginações do que propriamente o nosso imaculado ambiente...
  
Mais uma pequena contribuição à história do curso da Paróquia de S. Geraldo, 
enquanto o nosso querido coordenador BANZÉ não escreve o documento completo.

Todos sabemos que o A Dão (Adão com "D" grande) era apaixonado pela Lúcia, a quem só chamava de DONA LÚCIA e o Ronaldão se roía de ciúmes, face ao charme ondulante do referido A Dão.
E, cá pra nós, o ciúme dele tinha razão de ser. A Lúcia gargalhava só de pensar no A Dão, lembram-se? 
Ela não resistia. Todos sabemos que, se simpatia é quase amor, gargalhar por alguém é amor mesmo e dos mais vibrantes. Não foi por outro motivo, que o nosso querido Ronaldo, desesperado, começou a expulsar de sala todos aqueles velhotes, só porque eles não sabiam demonstrar uma inequação do segundo grau, segundo a teoria quântica. O Ronaldo falava: "mas, isso é básico, senhores! Quem não souber... rua!" 
Adivinhem quem foi o primeiro a ser expulso? Na verdade, o alvo real da medida do professor... 
Pra ajudar a adivinhação, lembro que foi nesse exato episódio que o Ronaldo fez jus ao PRÊMIO MUSSOLINI 1970. Quem adivinhar ganha uma caixa de marmelada Leopoldina. 
Todos acertaram ao mesmo tempo: A Dão com "D" grande, que dúvida?!?!?
Este, o A Dão, claro!, com o cinismo que Deus lhe deu, e creio que para humilhar o Ronaldão, repetia sempre: "adoro a DONA LÚCIA, porque quando cheguei aqui nem sabia escrever meu nome, já agora"...
PANO RÁPIDO!!!
Atenciosamente,
Mauricio Murad.

Aqui cabem (comedidamente...) as paixões realmente secretas, em deduragens aliviadas ou confissões digeríveis.
Pequenas ilusões e lamentáveis enganos ficam, quiçá, para os Comentários...
Ou, mais sabiamente, para arquivos ainda mais secretos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

033 > O refúgio da Eleutério Mota




Uma das principais consequências do casamento de Natália e Derval foi o fato de que se instalaram numa casa bem perto da igreja São Geraldo, na rua Eleutério Mota.



Um cafofo, que logo se tornou refúgio dos amigos, ponto de encontro, área de lazer...


Carlos, Derval e Natália entre as roupas comuns dependuradas...





 



Natália e Reni, politicamente incorretas, fumando apenas um cigarro comum...


Momento de descontração coletiva...
À esquerda, possivelmente, Vendrami e Augusto; Derval bicando uma birita e Antonio Jaime, um dos vários agregado ao grupo de Olaria.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

028 > Os padres

Paulo Vendrami põe um pouco de seriedade nesta coisa...
Lembra uma referência fundamental, aliás, fundante: os padres.
Diz Vendrami: Vejo que a Turma de Olaria não é apenas uma criação, mas uma instituição. Como tal deveria ter sede, secretária e telefone. Que furor... Acampamento em Floripa, em Guaratiba, em Angra, viagem para Pres. Prudente. Em todos eles, onipresente, está o nosso grande guia, o Band.
Mas a história seria muito diferente se não tivesse havido o apoio dos padres de São Geraldo. E o apoio existiu e aqui estamos nós, com um mar de histórias a rastrear nossa história.
Eu me lembro que em 66 estava recolhido ao convento franciscano na Praça Rui Barbosa, em Curitiba. Estudava Filosofia, Psicologia, Ética, Cosmologia... Que entendia eu disso tudo, com a cabeça fervendo aos 22 anos?
Curitiba foi meu primeiro contato com a cidade grande, roceiro que sou. Muitos encontros de igrejas, por influência do Concílio Vaticano II, com o magnânimo João XXIII. Muita presença do existencialismo, visto que Sartre estava ainda vivo e exercia muita influência no "engajamento" e "aggiornamento" [teologia da libertação] da igreja católica.
O Roberto Carlos começa a cantar suas canções românticas e num sábado à noite ele apareceu num palco na praça Rui Barbosa, com centenas de meninas gritando pelo rei do ie ie ie. Música alta. Eu ouvi do convento... A repressão comia, nas ruas, nos quartéis, no Vale da Ribeira, mas disso eu não sabia... 
Acrescento eu, Guina: Posso dizer relativamente pouco sobre os padres. Minha ligação era com a turma e só “lateralmente” com eles. Na verdade, eles estendiam (eu sabia) um grande guarda-chuva sobre nós. Sem a atitude democrática, praticamente libertária, deles, não teríamos feito quase nada do que estamos contando...
Mas, também, continuavam sendo, para mim, figuras de autoridade, até porque ligadas a uma estrutura de poder pesada, a Igreja Católica. Então não conseguia conviver de igual para igual.  Exceto (para lembrar algo pontual) quando jogava xadrez com o Cipriano nas salinhas abaixo da igreja. Lembro de uma partida que foi até umas três da manhã, ele preocupado com compromissos matinais, jogo em equilíbrio total... que, não lembro, mas acho que ele perdeu pq tinha que ir dormir...
Ah, e de uma situação dramática: o dia em que Cipri falava com alguém lá embaixo, pela beirada do pátio da casa paroquial, e, ao se virar, pisou num miquinho do tamanho de um passarinho que criava, que não resistiu aos ferimentos, deixando todos nós altamente consternados... [Isso aconteceu mesmo? Acho que sim, ficou forte na memória.]
Os demais padres, de certo modo, eram pontos de apoio, especialmente nas viagens. Eu, na prática, deixava a liderança de momento do grupo, digamos assim, negociar com eles...
De qualquer modo, tenho um sentimento de gratidão por todos eles (e seria injusto não ter), pelo que usufruí com a turma, mas também pelo que vi de quanto eles foram úteis à vida de tantas outras pessoas.
 Bandeira escreve sobre o Padre Cipriano:
Já o conhecia anteriormente à formação da Turma de Olaria, pois o mesmo dava assistência espiritual à sogra de meu falecido irmão Jorge Eduardo Bandeira, Dª Jandira, que morava na antiga Rua 9, lá no IAPI, e vivia completamente entrevada numa cama de hospital, apenas mexendo com a cabeça, sendo alimentada na boca e asseada na própria cama, tarefa na qual minha falecida mãezinha passou a ajudar.
Sempre alegre, jovial, esbanjando vida, não foi ele que nos deu assistência quando formamos o grupo de jovens em São Geraldo, tarefa que foi exercida inicialmente pelo Pe. Severiano. Quando Severiano resolveu fundar uma nova paróquia no Largo do Bicão, Cipriano assumiu, com muito gosto, a tarefa de dar-nos acompanhamento.
Iniciaram-se anos de ternura e alegrias, dentro daquela filosofia esposada pelos mesmos (Antônio, Severiano e Cipriano) de não interferirem diretamente na nossa formação e orientação, participando quase que em pé de igualdade das nossas discussões e reflexões, ajudando-nos enormemente a superar aqueles vícios de formação tradicional, especialmente desviando o foco da noção de "PECADO" das infrações individuais cometidas, especialmente àquelas de natureza sexual, quase que invariavelmente associadas aos questionamentos humanos à vontade de Deus.
Lembro-me de que procurei um Padre em São Geraldo para confessar meus pecados e receber a absolvição, a fim de participar da Páscoa Escolar do Colégio Ferreira Viana (1967), onde fazia o ginasial e onde conheci o Mauricio.
Cipriano me atendeu e nos dirigimos para dentro da Igreja; quando eu ia em direção ao confessionário, ele pegou-me pelas mãos e convidou-me para sentar-nos num banco da igreja, frente à frente; meu coração batia aceleradamente!
Ao narrar-lhe meus "pecados" de natureza sexual, o mesmo, assombradamente para mim, declarou que aquelas práticas não eram pecado, pois integravam a natureza que Deus nos deu, e portanto, eram naturais.
PECADO era não amar o próximo, ficar indiferente ao sofrimento alheio, à miséria e à fome que atinge nossos semelhantes.
Saí dali eufórico e deslumbrado, acreditando que aquela era a verdadeira religião e o destino de todos os homens.
Envolvi-me gradativa e completamente com a Política, assumindo metas as quais persigo até hoje!
UFA! Que Depoimento! Lavei o coração.
Beijos a todos, Luiz Antônio Bandeira.
Postagem aberta para lembranças sobre os incríveis padres com que convivemos, ok?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

023 > O Primeiro Acampamento

Mergulhando profundamente no passado, Bandeira traz à tona...

O Primeiro Acampamento

No fatídico ano de 1966, quando o Rio de Janeiro se viu assolado por violentas chuvas que provocaram graves acidentes como a queda de encostas, desabamento de prédios residenciais em áreas urbanizadas (Stª Teresa, Cosme Velho, etc...), deixando um rastro de centenas de mortos e milhares de desabrigados, um pequeno grupo de rapazes adolescentes, criados desde a 1ª infância naquela estrita faixa de terra espremida entre o fundo da Baía de Guanabara e o maciço montanhoso hoje chamado de "Complexo do Alemão", atravessada por dois corredores demarcatórios, a velha linha ferroviária da Leopoldina, que se estendia até a então capital da Baixada Fluminense, Caxias, percorrida por seus comboios ainda do século XIX, e a moderníssima Avenida Brasil, com suas largas pistas concretadas (que atravessávamos em alegres bandos para nos banharmos na Praia de Ramos, nossa principal diversão nos verões suburbanos cariocas), esses adolescentes, em nº aproximado de oito, que haviam iniciado uma aproximação com os padres da Igreja de São Geraldo, às proximidades da Estação de Olaria, e que através da grande habilidade do jovem Pe. Severiano, missionário secular, recém chegado da Espanha, mergulhado no "aggiornamento" pós Concílio Vaticano II (Viva João XXIII!), constituíram o primeiro núcleo do que viria a chamar-se a "Turma de Olaria".
Por sugestão do Pe. Severiano, organizou-se o 1º acampamento, na Praia da Barra de Guaratiba, num terreno ao lado de uma pequena capela, no alto de um morro ainda totalmente arborizado (um resquício da Mata Atlântica), com vista frontal e total da fabulosa Restinga da Marambaia, já àquela época ocupada pelos militares e de acesso vedado aos civis.
Os preparativos para o tal acampamento mobilizaram toda a paróquia, até mesmo com a cessão de barracas de lona do grupamento de escoteiros da matriz, naturalmente que estes, os escoteiros, vedados de participarem do evento, dado o repúdio que já professávamos por essas organizações tradicionais.
Obtidas as autorizações familiares, feita a "vaquinha" financeira para a compra de gêneros e mantimentos, realizada uma visita prévia ao local, cedido através do ex-pároco de São Geraldo, Pe. Zé Maria, naquele momento vigário em Guaratiba, o grupo de jovens, liderado pelo Pe. Severiano, tomou o rumo, de trem e ônibus, via Campo Grande, para Guaratiba, apesar da chuva que começara a cair naquele início de semana de janeiro de 1966.
Com dificuldades, carregando mochilas, barracas de lona, sacos de panelas e mantimentos, escorregando na lama que escorria enxurrada abaixo, pelo morro, chegamos à área escolhida, demarcamos os espaços para a armação das barracas, cavamos trincheiras para o escoamento da água, armamos as barracas naquele fim de tarde. Improvisamos um fogão no coreto ao lado da capela, onde preparamos nossa primeira refeição, já noite: café com leite, sanduíche de pão com ovo frito - delícia reconfortante à umidade já reinante.
Ansiosos pela novidade, 1ª noite nas barracas do acampamento, logo nos recolhemos às mesmas. Breve fantasia. A tempestade agravou-se e nossos leitos ficaram encharcados. Operação retirada e abrigar-se no coreto onde passamos uma noite no chão duro, com frio, pois lençóis e cobertas ficaram molhados.
No dia seguinte, a chuva não deu trégua. Constatamos que havia muitas goteiras no coreto; conseguimos abrir a porta da capela, onde nos instalamos com armas e bagagens, cada um ocupando um banco de missa, que passou a ser a nossa confortável cama pelo resto daquela venturosa semana.
Assim se passaram a 3ª e a 4ª feira, chovendo ininterruptamente. Nossas diversões restringiam-se a preparar a alimentação (03 refeições-dia), alguns jogos, brincadeira de adivinhar nomes de filmes, encarnações mútuas, confidências em grupo ou em pares, algumas celebrações da palavra e liturgia, conduzidas pelo Pe. Severiano. 
Na 5ª feira, finalmente, as nuvens começaram a se dispersar, o sol começou a aparecer timidamente, e nós pudemos descer do morro e acessar a praia, com as águas barrentas e cheias de detritos, mas que serviu de cenário para nos esbaldarmos até 6ª feira, quando após o almoço (muito macarrão e arroz com salsichas, cardápio invariável), iniciamos nosso retorno. 

O grupo mais numeroso, que residia na Rua 13 do IAPI da Penha, ao assomar à Rua e seus blocos de apartamentos, foi saudado com aflição pelos vizinhos, aliviados por nos verem saudáveis e bronzeados, preocupadas que estavam as famílias por conta da ausência de notícias, agravada pelas catástrofes que haviam atingido a cidade.
Aos irmãozinhos Augusto, Dourival, Emílio, Ricardo, Luluca,  Perfeito, Severiano e outros porventura não citados, meu eterno afeto.
  Luiz Antônio Bandeira.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

020 > Tempos que deixaram saudade. Ou não...

Carlos mandou este texto, que diz tudo.

São 40 anos e a vida de cada um tomou rumos diferentes. Daí as pessoas serem hoje, às vezes, muito diferentes do que eram. Ou não. O que pesa na nossa história é termos nos formado adultos a partir de um tempo de convívio íntimo que nos deu valores, ética, projetos de vida e permitiu reflexões do vivido a cada momento. Aquele tempo era muito especial. Não o tornei um fetiche. Era um tempo com alegrias e tristezas, esperança e desesperança, satisfação e decepção. Como todo o tempo da vida. E essa mesma vida que nos dirige a todos, guardando o inesperado a cada dobra de esquina, nos leva a sermos o que somos e não querermos, mesmo que provisoriamente, algo ou alguém. Isso é o que penso sobre o episódio. Tudo bem! Ficamos com o que temos e que é muito bom.
Alguém tem alguma dúvida da crueldade presente em crianças e adolescentes? Quem duvida sofre de amnésia! Alguns mais do que os outros cometem absurdos para os adultos que somos. Fiz e fizemos um monte de "maldades", mas faz parte do jogo da adolescência. A turma, a panela, o grupo, o grupelho são estratégias de sobrevivência no cotidiano.
Pensem bem. Quem foi adolescente nos idos dos 60 enfrentou um tempo de mudança brusca dos costumes. Um movimento de mudança que gerou conflitos geracionais enormes, sofrimentos necessários para compor os adultos éticos que tenho certeza somos hoje. Meio assustados com o resultado dessas mudanças todas. Fico pensando o que seria uma Adriana, ou uma Cristina, ou uma Lúcia ou uma Vera ou Natália e todas as outras, enfrentando a barra de serem mulheres em um tempo de afirmação de uma nova mulher, completamente oposta as desperate housewives que eram as nossas mães; a maioria, pelo menos. Fico pensando o que eram os Luizes, os Augustos, Os Luíses Césares, os Paulo, os Emílios, os Paulinhos, os Guinas, os Dervais e todos os outros enfrentando a barra de serem homens diante dessas novas mulheres. Foi foda, né? Mas a gente sobreviveu e muito bem, acredito. Penso que a Turma de Olaria foi fundamental para nossa bagagem ética, nosso compromisso com o Humano e o mundo. Tenho muito orgulho desse tempo, em que pese os exageros, a irreverência, a maledicência do momento. Era tentativa de afirmação e diversão e de enfrentamento. Lembro do casamento do Charles, completamente fora dos padrões e que a noiva dele, por sinal, belíssima, disse na hora da troca de alianças que se casava com ele porque o amava e o amava porque ele era um homem que amava os outros homens. Isso ficou lá dentro da minha cabeça e da minha pessoa e resume bem o que creio que ficou para todos nós daquele tempo.
Meu pai (que já morreu e a quem o Luiz alcunhou de China - acho que por causa dos olhos rasgados, herança índia da Dona Philomena, minha avó) certa feita me mandou cortar os cabelos. Logo eu, Beatlemaníaco junto com a Rosinha, minha vizinha da Rua Antônio Rego, 82. Éramos um fã clube de dois no início da adolescência! Pois é, meu pai mandou cortar o cabelo. Fui ao barbeiro, nas Cinco Bocas e dei uma aparada básica. Voltei feliz da vida me achando um Paul MacCartney! Quando cheguei em casa ele quase me cobriu de porrada! Me mandou de volta e ordenou ao mesmo barbeiro que cortasse meu cabelo à Príncipe Danilo. Sai Paul, entra aquele sebosinho que não lembro o nome e que contracenava com a Janeth MacDonald nos musicais dos anos 20. Humilhado, voltei pela rua me achando um lixo e jurando fugir de casa quando completasse 18 anos. Só saí com 27.
Era esse tipo de coisa que a gente vivia e que nossos filhos e netos vivem hoje também. De outro jeito, mas com a mesma intensidade.
Por falha do administrador, faltava o trecho final do texto, que entra agora, 20/10:

Irreverentes. É. Era o que éramos, mas como forma de expressão do baita conflito. Confundíamos as coisas muitas vezes. Éramos arrogantes em tantas outras. Gente! Nós praticamente acabamos com as procissões. Lembram da enquete que fizemos para decidir se o povo queria aquilo ou não! Isto é de uma arrogância tremenda! Talvez eu tenha sido um dos mais irreverentes de todos!
Não sei bem em qual experiência teatral chegou pelas bandas de São Geraldo um cara que se propôs a ser diretor do espetáculo. Era um cara barbudo, meio esquisito, pelo menos é assim que me lembro dele! Em um dos ensaios eu estava aprontando todas, perturbando a disciplina do momento e ele, provavelmente pelas coisas que eu estava dizendo e/ou fazendo, me chama a atenção: Êh! Se aquieta aí, Leila Diniz!
Na hora fiquei ofendidíssimo, ferido no masculino! Mais tarde lembrando do episódio, percebi que foi um dos maiores elogios que recebi na minha vida! Irreverente, provocador, corajoso, indiscreto, exposto - Adolescente!!!
Querem mais? Fica para um outro capítulo. Afinal, isto não é uma biografia.
Beijo
Carlos


Ou não diz tudo?...
O que deixou (e o que não deixou) saudades da vida daqueles tempos?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

015 > Cronologia ou Caos!

Tantas histórias!
E tantas incertezas...
Então, proponho uma cronologia "basiquinha".
Vamos relembrar as datas dos grandes momentos da turma de Olaria?
Inicio com os que lembro (ou chuto...) e os que já informaram.
À medida que comentem, atualizo.

1965 >
? – encontros iniciais do grupo
1966 >
? – ida de Bandeira e Augusto à igreja de São Geraldo – comentário em 006 > Os primeiros registros
1967 >

Igreja de São Geraldo, Olaria, Rio,
vista do outro lado da ferrovia.
(autor desconhecido)
 
Novembro – ida a Niterói – em 006 > Os primeiros registros

1968 >
Dezembro – AI-5,  prisão
1969 >

? – festa na casa da Kika – em 011 > A festa na casa de Kika

1970 >

Janeiro – viagem a Foz do Iguaçu – em 001 > Viagem da turma de Olaria a Foz do Iguaçu

Fevereiro – viagem a Bahia [Derval e Perfeito]
Março / Semana Santa – Barra do Piraí
Julho – primeira viagem a Petrópolis
1971 >

Janeiro – viagem a Santa Catarina [Vendrami e Renato]

Carnaval ou Semana Santa? – Angra dos Reis
Carnaval – viagem a Salvador [Derval, Guina e + um...]
Abril / Semana Santa – Barra do Piraí
Julho – Barra do Piraí
1972 >
Carnaval – acampamento em Ponta Negra
? – Petrópolis
Novembro – Finados – Barra do Piraí
1973 >
Março a Junho – viagem (quase) ao Chile [Getúlio, Guina e Soninha]

Dúvidas cruéis: Afinal, quando foram a Angra?... Quando estreou Morte e Vida Severina?... 
Atualizações contínuas!